Resenha: Pretérito Imperfeito

sexta-feira, 13 de maio de 2016



Entre os tantos prazeres que esse blog me proporcionou, fico extremamente feliz com a possibilidade de conhecer novas pessoas, novas histórias, novos livros. A literatura me encanta desde pequena e, ao longo de quase quatro anos, mais de quarenta resenhas foram postadas, muitas sobre clássicos que se consagraram no tempo. Dessa vez, foi um autor nacional que me proporcionou a experiência encantadora de ler um "clássico contemporâneo", uma história simples à primeira vista, mas sujeita a várias interpretações: Pretérito Imperfeito, de Gustavo Araujo.



Em um primeiro plano, Pretérito Imperfeito narra a história de amizade entre Toninho e Cecília, duas crianças de comportamento diferentes que encontram numa clareira um lugar mágico, um refúgio dos problemas cotidianos. Enquanto a perspectiva de Toninho é narrada em terceira pessoa, apresentando um menino que tem um relacionamento distante com o pai, dificuldades para ler em público e fascínio por passarinhos, a história de Cecília é narrada por ela mesma de maneira epistolar, citando os vários livros que ela lê, a tristeza em não poder sair de casa por conta de uma situação que não compreende, a saudade do pai cada vez mais ausente e seu envolvimento com Toninho, que a encontra todos os dias na clareira. Em um segundo plano, Pretérito Imperfeito aborda o conturbado passado do pai de Toninho: Seu Vieira, que foi militar durante a Era Vargas.

Entre idas e vindas ao passado, Gustavo Araujo nos apresenta uma história deliciosa, que nos envolve por ter uma escrita invejável e personagens extremamente cativantes. Cecília é uma menina esperta, extrovertida e nas suas cartas (escritas para uma amiga, ou para si mesma?) descobrimos sua personalidade e ficamos mais próxima da personagem. Já Seu Vieira, um homem tão comum de nome tão comum, tem um passado bastante sombrio e misterioso, que vemos ser construído pouco a pouco à medida que a história volta no tempo. Nesse aspecto, a contextualização da obra é interessantíssima, pois são inseridos alguns personagens históricos do período e, em determinado momento, a narrativa passada influencia no tempo presente, de uma forma a princípio confusa, mas bem construída. Quanto ao 'presente', ainda que o ano em que se passa a história não seja relevante, é incrível como acompanhamos um menino típico dos anos sessenta, que pratica leitura em voz alta na classe, é incomodado pelo repetente da turma e tem um respeito quase temerário com o pai.



A relação de Toninho com Seu Vieira é complicada, e talvez um dos objetivos 'ocultos' ao final do livro seja justamente refletir sobre a relação de pai e filho, sobre o distanciamento entre eles. Por conta de seu passado, Pedro Vieira é um homem fechado, sério, que procura levar uma vida 'normal', fazendo com que Toninho tenha medo de decepcionar o pai e inclusive não saiba compartilhar o seu gosto por estudar passarinhos, já que o pai poderia achar que é 'besteira'. Nisso, ele procura refúgio na amizade com Cecília. É a menina que o ajuda a superar dificuldades, a menina que oferece um ombro amigo. A relação de Toninho e Cecília é explicada com perfeição por Cecília em um metafórico conto presente no livro: O menino que queria laçar a lua. No conto, são potencializadas todas as características presentes na narrativa, destacando-se a delicadeza e a sensibilidade.

Eu costumo desconfiar de resenhas tecendo inúmeros elogios aos parceiros e muitas vezes faço uma análise distanciada, quando determinado livro é bom, mas não é do meu agrado. Dessa vez, me sinto na obrigação de dizer que Pretérito Imperfeito é um dos melhores livros brasileiros que já li. Não se trata apenas de uma história singela de amizade entre duas crianças, pois apesar de despretensiosa, sua profundidade nos envolve pouco a pouco, abrindo espaço para diversas reflexões. Trata-se de um livro cujo realismo fantástico flerta com Gabriel Garcia Márquez, cuja delicadeza lembra Meu Pé de Laranja Lima. Recomendo para todos essa leitura especial, uma obra contemporânea que, como referido no verso do livro, prova que a alma dos clássicos não envelhece.


Observação: Ganhei Pretérito Imperfeito porque o autor demostrou interesse que eu escrevesse uma resenha e fiquei muito feliz com a oportunidade de ler uma história tão maravilhosa. Não deixem de curtir a página de Pretérito Perfeito no Facebook e claro, conferir o livro, que pode ser comprado na versão e-book nesse link.

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8 comentários

  1. Eu acho a capa desse livro tão perfeita.
    O livro parece ser muito bom pela a sua resenha, gostei muito ♥

    Beijos
    www.conversandocomalua.com

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  2. Ultimamente estou lendo muitos autores nacionais e me apaixonando pelas novas descobertas. Esse parece ser interessante e sem dúvida vou colocar na listinha.

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  3. Você falou tão bem do livro que fiquei com vontade de conhecer a história e a relação do Toninho com o pai, e sua amizade com Cecília.

    Adorei a resenha, mesmo ^^

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  4. Nossa, que resenha maravilhosa!!!! Este livro parece ser muito bom, apesar da simplicidade. Estamos precisando de "novos classicos". Espero que o autor tenha bastante sucesso!!!
    Beijos!
    http://virtualcheckin.blogspot.com

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  5. Esse livro é bem diferente do que costumo ler, mas fiquei curiosa para saber como a narração acontece, já que o autor escolheu uma forma bem diferente de desenvolver a história. Também gosto muito quando existem elementos históricos para embasar os acontecimentos do livro, então isso é mais uma coisa que me chamou atenção!
    Beijos
    Mari
    Sorteio no blog Pequenos Retalhos: Livro Mentira Perfeita. Participe!

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  6. Queria agradecer publicamente à Victória pela resenha. Diante de um mercado editorial que favorece em peso os grandes nomes, é fantástico perceber que há pessoas que preocupam com a essência da literatura, ampliando os horizontes de leitura, fugindo da mesmice e buscando, constantemente, essa "Terra do Nunca" de livros e autores pouco conhecidos.

    Para quem escreve, não existe nada mais recompensador do que saber que sua história emocionou, que provocou questionamentos, que tirou o leitor da zona de conforto.

    Obrigado por repartir esse sentimento, Victória. Para mim, como autor, é um privilégio ler uma opinião tão sincera.

    Um abraço!

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  7. O livro "Meu Pá de Laranja Lima" foi o melhor livro que já li. Se esse lembra o meu livro preferido, quero ler!
    Gostei da resenha simples que você fez.
    Já anotei para comprar em breve!
    Beijos, Aline
    http://versoaleatorio.blogspot.com.br

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  8. querida... o seu encantamento foi o mesmo que tive ao ler gustavo araujo. ele já está nos devendo mais de suas palavras tocantes. bela resenha a sua! parabéns!

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