Crítica: Blade Runner 2049

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Blade Runner 2049

Blade Runner: 2049 se passa trinta anos após os acontecimentos do original, quando as indústrias Tyrell foram a falência e os replicantes remanescentes, que se esconderam na sociedade, são perseguidos pelos blade runners - dentre eles, o policial K (Ryan Gosling), um replicante muito mais avançado como os produzidos pelas indústrias Wallace. Quando, após mais uma missão, K encontra um esqueleto enterrado e acaba sendo responsável por investigar uma descoberta que pode trazer grande impacto para a humanidade.



Por mais que Blade Runner de 1982 seja elogiado pela qualidade técnica e tenha uma história interessante por si, um dos pontos cruciais do filme é que ele questiona o que faz de nós humanos, qual a diferença entre nós e seres que, embora criados por meio da tecnologia, desenvolvem sentimentos e até mesmo memórias de suas experiências. Toda essa filosofia cai por terra quando Blade Runner: 2049, resolve de uma forma simplista a questão, atribuindo a "condição humana", por assim dizer, a um milagre. A "solução" é reducionista e serve tanto para fazer uma ligação com o filme anterior (ligação esta que eu teria dispensado) e possibilitar a óbvia trajetória de autoconhecimento do protagonista K, interpretado por Ryan Gosling. Apesar de a busca do protagonista constituir uma trama interessante, a discussão existencialista talvez seja muito mais forte em Joi (Ana de Armas), uma acompanhante virtual cuja aparência holográfica denúncia sua condição de inteligência artificial e seu modo de falar e agir igualmente demonstra que todas as suas reações são programadas - mas por que suas reações valeriam menos que as de outros replicantes? Como distinguir a veracidade de nossas emoções? Seria o "amor" que K sente por ela menos real do que sentiria por uma humana?

Blade Runner 2049


Em relação aos demais atores, Jared Leto protagoniza cenas entendiantes como o magnata das indústrias Wallace e Sylvia Hoeks, que interpreta a replicante Luv, tem uma papel importante como assistente pessoal de Wallace e sua atuação é boa ao mesclar uma personalidade comedida e raivosa ao mesmo tempo, mas não ficam claras as suas motivações e isso acaba prejudicando a trama. Já o esperado Harrison Ford, cujo trailer anunciava uma participação bem maior do que a que efetivamente teve, estava muito bem ao reviver o papel do blade runner Deckard e consegue trazer mais ação ao filme, que até então estava intencionalmente lento. Há aspectos interessantes a serem extraídos da trama, mas a verdade é que ela se sustenta em conveniências (não é curioso justamente K ser responsável pela investigação, bem como a ligação da sua busca com Rachel, a fria replicante do Blade Runner original?) e é muito aquém ao filme anterior, vez que o dito "milagre" simplesmente não convence, além de, para mim, ser prejudicial ao debate existencialista antes proposto.

Blade Runner 2049


No que concerne à qualidade técnica, o filme lembra muito seu antecessor e inclusive faz pequenas homenagens, seja nas propagandas que vemos em Los Angeles, seja aos pequenos tributos à trilha sonora de Vangelis (neste ponto, infelizmente, a trilha sonora de Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch não chega à altura) ou mesmo a semelhança visual de Mariette (Mackenzie Davis) com a replicante Pris (Daryl Hannah) do filme original. A Los Angeles futurista e devastada está bastante impressionante e o universo se expande ao mostrar extensas planícies superpopuladas, metrópoles reduzidas a depósitos de lixo e uma Las Vegas abandonada. Todos os cenários tem a mesma atmosfera densa e melancólica típica do cinema noir, sem apresentar grandes inovações, mas de uma forma extremamente funcional. Uma pena a história já ser arrastada e o diretor insistir em tomadas despropositadas, como as incontáveis sequências de voo e mesmo algumas passagens do protagonista. Dentre cenas importantes, porém duvidosas, podemos citar o estranho confronto na água, que não obteve o impacto previsto e, veja bem, o encontro do policial K com Deckard, bem como toda a sequência entre os hologramas.

Blade Runner 2049


Blade Runner, lançado em 1982, é um filme memorável: um verdadeiro marco da ficção científica, que conquistou uma legião de fãs pela temática noir, pelo visual futurista e decadente, pela marcante trilha sonora de Vangelis e por uma trama interessante que nos faz refletir sobre o que faz de nós humanos. Já Blade Runner: 2049 distorce um pouco a filosofia do original e apresenta uma história lenta e desnecessária em comparação ao anterior, de modo que as minhas lembranças sobre o novo filme, infelizmente, serão diluídas pelo tempo, como lágrimas na chuva.

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2 comentários

  1. Realmente, não curti quase nada de 2049, exceto pelo H. Ford, em geral achei o filme muito lento e desnecessário também.

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  2. Que pena que o filme não conseguiu entregar tudo o que prometeu. Sei que as expectativas estavam bem altas para o lançamento, ainda mais se contarmos com o elenco. Não assisti nenhum deles, mas fico triste que o mais novo tenha tantas falhas.
    Quero muito ler o livro, mas ainda não consegui.
    Beijos
    Mari
    Pequenos Retalhos

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