Filmes: Vidas ao Vento


sexta-feira, 30 de abril de 2021



Os filmes do Studio Ghibli são reconhecidos pela altíssima qualidade das animações e boa dose de surrealismo e misticismo. O último filme de Hayao Miyazaki traz uma obra mais realista e menos impactante que as demais, porém com uma arte incrivelmente bela e, como sempre, capaz de provocar algumas reflexões: Vidas ao Vento.

crítica filme Vidas ao Vento


Vidas ao Vento é uma espécie de biografia de Jiro Horikoshi, um engenheiro aeronáutico japonês famoso pelos ótimos design de aviões que projetou - em especial, do avião "Zero", caça japonês utilizado amplamente na Segunda Guerra Mundial. No filme, acompanhamos Jiro desde a infância, quando era um menino apaixonado por aviões, até seu envolvimento na aeronáutica na vida adulta e seu incansável trabalho de fazer aqueles aviões com design e conceitos mirabolantes serem capazes de voar. Paralelamente, o filme retrata as idas e vindas da relação de Jiro com a bela Naoko, uma delicada artista que vê sua saúde ficar cada vez mais fragilizada graças à tuberculose.



Enquanto >Túmulo dos Vagalumes retrata com sensibilidade o lado japonês da Segunda Guerra e filmes como Princesa Mononoke e O Castelo Animado tem um caráter anti-belicista, desta vez não há grandes julgamentos sobre as atrocidades cometidas na Guerra e inclusive, o Japão é pintado como um grande país, o que causa certa estranheza ou, no mínimo, confunde o telespectador acerca da mensagem passada com o filme. De todo modo, fica claro que o belíssimo sonho de voar carrega a maldição de ser uma arma de guerra, premissa que é aceita por Jiro, retratado como um rapaz sonhador e esforçado que corre atrás do seu sonho.

crítica filme Vidas ao Vento


A poesia do filme fica por conta dos sonhos lúdicos que Jiro tem com o aviador Caproni e a belíssima maneira com que o "vento" é utilizado, seja em aviões de papel, seja para aviões de verdade planarem, seja para aproximar Jiro de seu verdadeiro amor, Naoko. A única personagem feminina deste filme é bem diferente das protagonistas fortes e decididas de Miyazaki, eis que seu grande objetivo é ver Jiro feliz. No entanto, a delicadeza da personagem é o contraponto necessário para a realidade de Giro, intercalando cenas mais frias e até mesmo técnica sobre a criação de aviões com um singelo romance, que até pode sobreviver à Guerra, mas corre grandes riscos de sucumbir à doença. Para retratar essa suavidade, Vidas ao Vento conta com uma arte deslumbrante e uma paleta de cores em tons pastéis, mais realista, porém, com lindos cenários e uma trilha sonora igualmente bela.

crítica filme Vidas ao Vento


Vidas ao Vento foi o último filme dirigido por Hayao Miyazaki e, apesar de algumas cenas surrealistas, fica nítido que a trama deixa a fantasia de lado para dar enfoque a uma realidade mais crua e não tão fascinante, sobretudo pela temática relacionada à segunda guerra. Em que pese alguns tenham dúvida sobre a mensagem do filme, que retrata com uma poesia imensurável a vida de um fabricante de armas, também resta claro se tratar de um sonho amaldiçoado, de modo que Vidas ao Vento traz grandes reflexões sobre sonhos e sobre nossa infeliz capacidade de destruição.

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Filmes: Cinco centímetros por segundo


sexta-feira, 23 de abril de 2021



Sempre gostei muito de animações japonesas pela qualidade visual das produções, mas algumas obras nos encantam justamente pelo realismo e pela sensibilidade com que retratam o cotidiano. Um dos filmes mais elogiados nesse estilo é Cinco centímetros por segundo, uma história sensível e tocante sobre amizade, amor e distância.

Cinco Centímetros por segundo


Cinco centímetros por segundo conta a história de Takaki Tono e Akari Shinohara, dois grandes amigos que estudavam na mesma escola primária e cresceram juntos, mas o destino quis vê-los separados. Por conta do trabalho de seus pais, Akari acaba se mudando para outra cidade e passa a se comunicar com Takaki por meio de cartas, tentando manter contato. Em uma rara oportunidade, Tataki enfrenta vários contratempos ao pegar um ônibus para encontrar Akari, mas é justamente aquele encontro que faz com que ele tenha duas tristes certezas: que ele a ama e que será muito difícil encontrá-la novamente.


Trailer em inglês. O anime está disponível no Netflix!


Cinco centímetros por segundo é uma animação produzida por Makoto Shinkai, tem duração de uma hora e é dividida em três partes: Flor de Cerejeira, Cosmonauta e Cinco Centímetros por Segundo. A sinopse acima refere-se ao primeiro capítulo do filme, mas nos outros acompanhamos o inevitável afastamento dos amigos por conta da distância, porém, sempre lembrando o sentimento que nutriam um pelo outro. Para dar esse sentimento de "distância" e "profundidade", a animação aposta em cenários bucólicos e muitas passagens envolvendo o céu, as estrelas, algo longínquo e belo. Nesse sentido, a arte do anime é simplesmente deslumbrante e o traço é bastante realista, com um estilo visual mais próximo do seinen e do josei (mangás/animes voltados a jovens adultos).

Cinco Centímetros por segundo


O roteiro é extremamente simples e não tem grandes variações ou reviravoltas, nos deixando incomodados com a falta de acontecimentos e, principalmente, com o final. Contudo, o mérito está justamente em demonstrar com sensibilidade uma história que acontece todos os dias: amigos que se separam, casais que não podem ficar juntos, amores que se tornam impossíveis não por alguma guerra ou fato dramático, mas simplesmente porque a vida quis assim. O filme também demonstra diferentes formas de lidar com o passado - relembrando as boas memórias ou, então, ficando amargurado pelos tempos que não voltam mais - e, de certa forma, até mesmo com as oportunidades que deixamos passar por estarmos tão apaixonados e obcecados por coisas inatingíveis. Uma pena, mas é a realidade.

Cinco Centímetros por segundo


Confesso que, quando o filme terminou, foi difícil concluir se gostei ou não, porque de fato fiquei triste assistindo. Cinco centímetros por segundo é uma história simples, sentimentalista e extremamente cotidiana, mas que lida com temas como amizade, nostalgia, amor e com o tão discutido "seguir em frente", algo que a princípio é impensável para aqueles que já experimentaram o verdadeiro amor.

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Filmes: Perfect Blue


segunda-feira, 19 de abril de 2021



Em 2015, Cisne Negro ganhou o Oscar de Melhor Filme, por ser um impactante thriller psicológico. O que poucos sabem é que o filme que ganhou a estatueta mais importante do cinema teve grandes influências de uma obra antiga obra japonesa: a animação Perfect Blue.

Crítica Perfect Blue


Mima é uma celebridade musical do grupo Idol Cham, que, por influência de sua agente, acaba largando a alegria de ser uma idol para se tornar uma atriz séria. A nova carreira acarreta grandes mudanças no perfil de Mima e muitos fãs não aceitam isso, de modo que Mima passa a ser perseguida e seus novos colegas de trabalho são cruelmente assassinados - o que é muito curioso, já que o seriado retrata um serial killer com distúrbio de personalidade. Além dos perigos do mundo real, bem como uma pessoa se passando por Mima na internet, a própria Mima não aceita deixar sua vida de idol para trás, e, mesmo estando cada vez mais pressionada para ser uma atriz e submetendo-se a situações vulgares que quebram totalmente a imagem doce e inocente de outrora, Mima é atormentada psicologicamente por visões de si mesma do passado, insistindo que a atriz fez a escolha errada e colocando em cheque sua própria existência.



Se fosse ambientado apenas em um "plano real", o filme já seria muitíssimo interessante: uma atriz que se vê obrigada a deixar a inocência para trás, realiza cenas pesadas (trigger warning: estupro) para se firmar como uma atriz de verdade, é perseguida por um stalker e ainda descobre um site chamado "Mima's Room", escrito por alguém que acompanha cada passo seu e ainda dá voz à verdade silenciada: Mima preferia continuar sendo uma idol. Com essas premissas, o filme retrata a perversidade na indústria cinematográfica, o papel submisso da mulher em uma cultura machista, a pressão e a insegurança de uma atriz em rápida ascensão. Contudo, o mais interessante dessa obra é a mescla da realidade e da ilusão, o fato de Mima ficar mais psicologicamente perturbada à medida que sua carreira avança como atriz. Com isso, o filme trabalha com "imagens", com nossa percepção do real, com ilusões criadas por nossas mentes. É o misto de realidade e fantasia que faz de Perfect Blue um filme complexo e inovador.

Crítica Perfect Blue


Lançado em 1997, a arte de Perfect Blue não impressiona e fica bastante aquém das produções da época, seja pelos traços, pelos cenários apagados, mesmo pela movimentação. Não obstante, o cinéfilo Satoshi Kon soube dirigir o filme com maestria e costurar uma história envolvente e complexa, na qual muitas vezes acreditamos estar vendo o real para, em seguida, uma nova cena provar o contrário. Apesar de confuso, a narrativa de Perfect Blue permite uma experiência impactante ao deixar o expectador tão perplexo quanto Mima, brincando com metalinguagem, o real e o ilusório ao mesmo tempo. A trilha sonora também provoca tensão na medida certa, contribuindo para que o filme seja um ótimo suspense psicológico.

Crítica Perfect Blue


Perfect Blue retrata o pior da indústria do entretenimento, que vende com sucesso artistas, objetificando as pessoas por trás - com a ajuda, claro, dos consumidores, que ficam irritados com mudanças no 'produto'. O filme também aborda a psique humana, a capacidade de lidar com nós mesmos e o perigo de mesclar fantasia e realidade, em uma obra realista com um toque de surrealismo, que, entre tantas camadas pessoais e subjetivas, também faz uma crítica dura à mídia e à sociedade como um todo.

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Resenha: O Diário de Anne Frank


sexta-feira, 16 de abril de 2021

Dentre os tantos relatos assustadores da Segunda Guerra Mundial, um dos mais famosos registros é o Diário de Anne Frank, no qual a garota judia Anne Frank descreveu com precisão o esconderijo em que ela e sua família viveram, desde dificuldades de convívio até aspectos práticos sobre o confinamento. O que nem todos os comentários deixam transparecer é o quão emocionante e inspirador é esse relato, sendo uma leitura significativa não apenas para compreender melhor este período, mas refletir sobre amadurecimento e esperança.

resenha do livro O Diário de Anne Frank


O Diário de Anne Frank foi iniciado em 12 de junho de 1942 por Annelies Marie Frank pouco antes de sua família se esconder em um anexo secreto no escritório do pai de Anne, em Anne Frank. Seus pais, sua irmã, o doutor Albert Dussel e a família van Daan, ao todo oito judeus, permaneceram confinados até 04 de agosto de 1944, quando agentes da Gestapo descobriram o Anexo, separaram seus integrantes e os levaram para campos de concentração. Em seu Diário, Anne conta detalhadamente sobre a estrutura do Anexo, as situações vivenciadas, as opiniões políticas sobre os adultos, as notícias que chegavam sobre a Guerra, a ajuda que eles receberam e a tristeza em saber que nem todos os judeus tinham a "sorte" de se esconderem. No diário, constam as tristezas e alegrias de Anne Frank, seus alívios e preocupações, demonstrando como era o cotidiano dos judeus que se esconderam e lutaram bravamente para sobreviver ao Holocausto.

Antes da guerra, Anne Frank era uma menina feliz: descreve-se a si mesma como "namoradeira", conta fatos engraçados sobre a escola, fala sobre suas ambições e o que gosta de fazer. Assim sendo, o livro começa de um jeito bastante juvenil e, no início, os principais problemas são causados pela dificuldade na convivência com seus pais e seus vizinhos. Aos poucos, Anne nos apresenta um relato bastante detalhado do lugar em que viviam, das condições precárias, do racionamento de comida e das poucas notícias que tinham sobre a guerra lá fora. E, mesmo com todos os infortúnios, Anne Frank continuava com suas leituras, com seus estudos por correspondência, com sua prática de novos idiomas, reconhecendo como era privilegiada em relação aos judeus nos campos de concentração e sonhando com o dia em que acabaria a guerra e poderia viver sua vida intensamente, sem os limites impostos pelo Anexo Secreto. Ora, se Anne Frank conseguia tirar proveito naquela triste condição e ansiava pelo fim da guerra, por que nós, seja por qual motivo for, haveríamos de perder a esperança?

É incrível como os relatos de Anne Frank são profundos, sinceros e, ainda assim, extremamente bem escritos. Anne Frank descreveu sobre a guerra, a rotina no Anexo Secreto, a passagem para a adolescência, os problemas com a família, o que esperar do futuro, sobre como ela era vista pelo mundo e como ela via a si mesma. São dúvidas e questionamentos inerentes a qualquer menina de treze, quatorze anos, mas demonstrando um amadurecimento e uma vivência que impressionam justamente pelo fato de Anne ter se desenvolvido tanto durante a guerra, nos dois anos em que permaneceu escondida. Anne Frank tinha uma personalidade forte e sabia disso. Era inquieta, questionadora, sabichona e tinha consciência de todas as suas qualidades e defeitos, tanto que, se nos primeiros capítulos despeja sua raiva contra o mundo e se mostra incompreendida, ao final compreende que também é importante questionar a si mesma e, todos os dias, descobrir no que se pode melhorar.

resenha do livro O Diário de Anne Frank


O destino de Anne Frank é triste: o Anexo Secreto foi denunciado e Anne foi levada para o campo de concentração de Auschwitz, onde morreu quando tinha quinze anos. No entanto, Anne Frank permanece viva em seu Diário, tendo como legado não só um relato preciso sobre o esconderijo de sua família como também as dúvidas e anseios de uma pessoa tal qual eu e você, dando um "rosto" aos milhares de judeus que não escreviam diários, mas tinham suas vidas, suas personalidades, suas esperanças. Não se trata de um estudo sobre a segunda guerra, ou uma biografia "construída", mas sim, das lembranças e pensamentos escritos pela própria Anne Frank, que nos leva a refletir sobre a vida e a forma com que encaramos o mundo, demonstrando ser possível encontrar esperança mesmo nas horas mais sombrias.

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