No Japão é muito comum os chamados 'dating simulator', jogos no qual o protagonista (normalmente, um estudante de ensino médio) passa a conviver e interagir com um grupo de garotas, dentre as quais uma será escolhida pelo jogador como principal interesse romântico. Normalmente, as garotas possuem personalidades extremamente estereotipadas e em praticamente todos os jogos haverá uma menina engraçadinha, outra mais tímida, uma 'tsundere' de humor instável e por aí vai. Doki Doki Literature Club sabe disso e, a princípio, parece ser apenas mais um jogo genérico, mas se diferencia dos demais à medida que faz graça do próprio gênero e surpreende o jogador ao se aproximar do estilo "horror".
Em Doki-Doki, o jogador é um estudante que deve escolher um "clube" para participar após as aulas na escola. Graças à insistência da sua amiga Sayori, o jogador acaba entrando no Clube de Literatura, onde encontra Yuri, uma menina tímida e inteligente, Natsuki, uma menina fofa de humor irritadiço (as famosas "tsundere") e Monika, presidente do clube. À exceção de Monika, todas as três são interesses românticos do jogador e ele deve fazer escolhas que levem a passar mais tempo com Sayori, Natsuki ou Yuri, normalmente escolhendo palavras para os poemas que devem ser elaborados. Doki-Doki começa a ficar estranho quando percebemos que aquelas meninas tão genéricas sentem-se atraídas por palavras como "depressão", "morte", "pesadelo", e quando começamos a ler os poemas das personagens, percebemos que alguma coisa sombria está acontecendo.

A primeira parte do jogo termina de uma maneira extremamente macabra e, a partir daí, o gênero horror entra em ação. O jogo começa a apresentar muitos glitches propositais, erros nos gráficos, textos por cima dos originais, coisas que não deveriam aparecer. Conhecemos um lado mais sombrio de cada personagem e as mesmas começam a apresentar um comportamento cada vez mais agressivo. Além da atmosfera ter mudado radicalmente, o Doki Doki fica ainda mais perturbador quando descobrimos que os próprios arquivos do jogo foram alterados, e que em determinado momento quem interage não é o personagem que interpretamos, mas nós mesmos. Há uma quebra da quarta parede e uma reflexão muito interessante sobre autonomia e livre arbítrio.
O estilo do jogo, na verdade, é uma "visual novel", que é uma espécie de "livro interativo" no qual o jogador toma decisões que afetam o desenrolar da história, sem fazer uso de mecânicas próprias de videogames, apenas apresentando imagens. O grande foco de uma visual novel é a história e a construção das personagens e, nesse sentido, Doki-Doki é realmente muito impressionante. A questão da depressão e problemas psicológicos é abordado de uma forma bem adequada, afinal, não é só porque a pessoa aparenta ser feliz que não possui nenhum problema grave. No entanto, cumpre referir que o jogo não é indicado para pessoas com problemas psicológicos ou que se impressionam com facilidade. É verdade que, apesar de tantos avisos, não achei o jogo tão perturbador assim e no quesito "horror" ele deixou a desejar. Mas é realmente bacana como o jogo usa a si mesmo e todos os clichês de um date game para criar uma atmosfera sinistra.

Doki Doki Literature Club está disponível gratuitamente na Steam e dura cerca de seis horas para terminar o jogo. Há toda uma metalinguagem interessantíssima de se descobrir e sua história é muito bem desenvolvida, sendo impressionante como o jogo começa de uma forma leve e divertida e acaba se tornando um verdadeiro horror psicológico. Não é apenas uma paródia do gênero "dating game", mas sim uma história completamente original que levanta várias reflexões. Vale à pena jogar!













quarta-feira, 21 de março de 2018