Filmes: Perfect Blue


segunda-feira, 19 de abril de 2021



Em 2015, Cisne Negro ganhou o Oscar de Melhor Filme, por ser um impactante thriller psicológico. O que poucos sabem é que o filme que ganhou a estatueta mais importante do cinema teve grandes influências de uma obra antiga obra japonesa: a animação Perfect Blue.

Crítica Perfect Blue


Mima é uma celebridade musical do grupo Idol Cham, que, por influência de sua agente, acaba largando a alegria de ser uma idol para se tornar uma atriz séria. A nova carreira acarreta grandes mudanças no perfil de Mima e muitos fãs não aceitam isso, de modo que Mima passa a ser perseguida e seus novos colegas de trabalho são cruelmente assassinados - o que é muito curioso, já que o seriado retrata um serial killer com distúrbio de personalidade. Além dos perigos do mundo real, bem como uma pessoa se passando por Mima na internet, a própria Mima não aceita deixar sua vida de idol para trás, e, mesmo estando cada vez mais pressionada para ser uma atriz e submetendo-se a situações vulgares que quebram totalmente a imagem doce e inocente de outrora, Mima é atormentada psicologicamente por visões de si mesma do passado, insistindo que a atriz fez a escolha errada e colocando em cheque sua própria existência.



Se fosse ambientado apenas em um "plano real", o filme já seria muitíssimo interessante: uma atriz que se vê obrigada a deixar a inocência para trás, realiza cenas pesadas (trigger warning: estupro) para se firmar como uma atriz de verdade, é perseguida por um stalker e ainda descobre um site chamado "Mima's Room", escrito por alguém que acompanha cada passo seu e ainda dá voz à verdade silenciada: Mima preferia continuar sendo uma idol. Com essas premissas, o filme retrata a perversidade na indústria cinematográfica, o papel submisso da mulher em uma cultura machista, a pressão e a insegurança de uma atriz em rápida ascensão. Contudo, o mais interessante dessa obra é a mescla da realidade e da ilusão, o fato de Mima ficar mais psicologicamente perturbada à medida que sua carreira avança como atriz. Com isso, o filme trabalha com "imagens", com nossa percepção do real, com ilusões criadas por nossas mentes. É o misto de realidade e fantasia que faz de Perfect Blue um filme complexo e inovador.

Crítica Perfect Blue


Lançado em 1997, a arte de Perfect Blue não impressiona e fica bastante aquém das produções da época, seja pelos traços, pelos cenários apagados, mesmo pela movimentação. Não obstante, o cinéfilo Satoshi Kon soube dirigir o filme com maestria e costurar uma história envolvente e complexa, na qual muitas vezes acreditamos estar vendo o real para, em seguida, uma nova cena provar o contrário. Apesar de confuso, a narrativa de Perfect Blue permite uma experiência impactante ao deixar o expectador tão perplexo quanto Mima, brincando com metalinguagem, o real e o ilusório ao mesmo tempo. A trilha sonora também provoca tensão na medida certa, contribuindo para que o filme seja um ótimo suspense psicológico.

Crítica Perfect Blue


Perfect Blue retrata o pior da indústria do entretenimento, que vende com sucesso artistas, objetificando as pessoas por trás - com a ajuda, claro, dos consumidores, que ficam irritados com mudanças no 'produto'. O filme também aborda a psique humana, a capacidade de lidar com nós mesmos e o perigo de mesclar fantasia e realidade, em uma obra realista com um toque de surrealismo, que, entre tantas camadas pessoais e subjetivas, também faz uma crítica dura à mídia e à sociedade como um todo.

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Crítica: Ghost in the Shell - A Vigilante do Amanhã


segunda-feira, 3 de abril de 2017

Com as inúmeras inovações tecnológicas e a nova mania da indústria cinematográfica de resgatar obras do passado, o gênero cyberpunk, cuja temática principal é a relação entre o ser humano e a tecnologia, novamente está em voga. Entre os principais expoentes do gênero, está a animação japonesa Ghost in the Shell, lançada em 1995 e que recentemente ganhou uma versão protagonizada pela atriz Scarlett Johansson, que chegou ao Brasil sob o título A Vigilante do Amanhã.

Ghost in the Shell


Ghost in the Shell se passa em um ambiente futurista no qual é difundido o "cyberaperfeiçoamento", ou seja, buscando uma versão melhor de si mesmo, humanos fundem-se às máquinas. Nesse contexto, somos apresentados à Major, uma ciborgue que trabalha em uma divisão de combate ao cyberterrorismo e passa a investigar os assassinatos de diversos executivos da Hanka Robotic, a principal empresa responsável pela tecnologia robótica e inteligência artificial. Ao mesmo tempo em que questiona seu passado e sua própria existência enquanto humana/ciborgue, Major também enfrenta um perigoso inimigo, o misterioso "Kuze", que pretende sabotar os projetos da Hanka Robotic e passa a se interessar pela história da Major.



A ambientação de Ghost in the Shell é incrível e nos apresenta um futuro tecnológico, com prédios altíssimos, subúrbios deteriorados e muita poluição visual. O cyberaperfeiçoamento é uma novidade aceita e altamente comercializada e, quem não tem nenhuma melhoria mecânica, aparenta ter ou procura alternativas em lugares duvidosos. O visual do filme é fantástico, os efeitos visuais são competentes e as cenas de ação muito bem executadas. O curioso é constatar que diversas cenas icônicas foram diretamente copiadas do anime de 1995, o que dá uma emoção extra aos fãs do filme original. É verdade que a história contou com algumas modificações, mas, tratando-se de uma adaptação e uma obra diferente do anime, o filme é excelente, vez que homenageia e ao mesmo tempo se sustenta por si próprio.

Ghost in the Shell


Em que pese a polêmica contratação de Scarlett Johansonn para viver a até então japonesa Motoko Kusanagi, a verdade é que a atriz estava muito bem no papel e isso se constata até mesmo no andar encurvado, nos movimentos mecânicos de alguém que não se acostumou ao corpo. Tanto Motoko quanto Batou (vivido pelo dinamarquês Pilou Asbæk) parecem ter saído diretamente do anime de 1995 e é incrível ver a relação de parceria entre os dois, que trabalham juntos nas missões contra o cyberterrorismo. No entanto, apesar de nomes competentes como Juliette Binoche, o elenco de fato estava ocidentalizado e seria mais interessante ver atores japoneses no cinema.

Ghost in the Shell


Ghost in the Shell em muitos aspectos é uma refilmagem do filme original, vez que manteve não só sequências inteiras, como também a mesma atmosfera noir futurista do anime de 1995. Contudo, em uma tentativa de entregar um filme mais linear e até mesmo compreensível, aos moldes dos filmes ocidentais, Ghost in the Shell se afasta dos questionamentos filosóficos do anime original e aposta na origem da Major, alterando também o final e a trama envolvendo o Master of Puppets que, nesse novo filme, é chamado de Kuze (Michael Pitt) e ganha uma forma mais humanizada, com uma história clichê e motivações mais claras. Isso, na verdade, não é de todo ruim: apesar de a história original ser superior justamente pela complexidade com que aborda a relação do homem e máquina (reflexão esta reduzida a frases de efeito no filme de 2017), o novo Ghost in the Shell dá uma repaginada na história e a torna mais atrativa para o grande público, entregando um roteiro mais explicativo sem esquecer, contudo, a essência do filme de 1995.

Ghost in the Shell


Com um visual fantástico e uma premissa bastante interessante, Ghost in the Shell distancia-se da discussão existencialista do filme de 1995 e aproxima-se dele na medida em que preserva sua identidade nos personagens, nas cenas e na atmosfera cyberpunk. Ainda que com ressalvas (e, importante ressaltar, todas elas se devem à comparação com a obra original), o live action de Ghost in the Shell é uma excelente adaptação e é competente ao atingir um novo público, dando destaque merecido a um gênero que, apesar da temática futurista, tem se mostrado cada vez mais atual.

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